dezembro 13, 2006

Convenção Europeia para a Protecção dos Animais de Companhia

Yubeng, Abril 2006


Para quando o verdadeiro empenhamento dos Estados?





DIÁRIO DA REPÚBLICA I SÉRIE-A - No 86 - 13-4-1993


CONVENÇÃO EUROPEIA PARA A PROTECÇÃODOS ANIMAIS DE COMPANHIA

PREÂMBULO
Os Estados membros do Conselho da Europa, signatários da presente Convenção: Considerando que o objectivo do Conselho da Europa é conseguir uma união mais estreita entre os seus membros;Reconhecendo que o homem tem uma obrigação moral de respeitar todas as criaturas vivas e tendo presentes os laços particulares existentes entre o homem e os animais de companhia; Considerando a importância dos animais de companhia em virtude da sua contribuição para a qualidade de vida e, por conseguinte, o seu valor para a sociedade; Considerando as dificuldades resultantes da grande variedade de animais que o homem possui; Considerando os riscos inerentes ao superpovoamento animal para a higiene, a saúde e a segurança do homem e dos outros animais; Considerando que a posse de espécimes da fauna selvagem, enquanto animais de companhia, não deve ser encorajada; Conscientes das diferentes condições que regulamentam a aquisição, a posse, a criação a título comercial ou não, a cessão e o comércio de animais de companhia; Conscientes de que as condições de posse dos animais de companhia nem sempre permitem promover a sua saúde e bem-estar; Verificando que as atitudes relativamente aos animais de companhia variam consideravelmente, por vezes devido à falta de conhecimentos ou de consciência; Considerando que uma atitude e uma prática fundamentais comuns tendentes a uma conduta responsável por parte dos proprietários de animais de companhia são não só um objectivo desejável mas também realista; acordaram no seguinte:

CAPÍTULO I

Disposições gerais

Artigo 1º

Definições
1 - Entende-se por animal de companhia qualquer animal possuído ou destinado a ser possuído pelo homem, designadamente em sua casa, para seu entretenimento e enquanto companhia. 2 - Entende-se por comércio de animais de companhia o conjunto de transacções praticadas de forma regular, em quantidades substanciais e com fins lucrativos, implicando a transferência da propriedade desses animais. 3 - Entende-se por criação e manutenção de animais de companhia, a título comercial, a criação e a manutenção praticadas principalmente com fins lucrativos e em quantidades substanciais. 4 - Entende-se por abrigo para animais um estabelecimento com fins não lucrativos onde os animais de companhia podem ser mantidos em número substancial. Sempre que a legislação nacional e ou medidas administrativas o permitam, um tal estabelecimento pode acolher animais vadios. 5 - Entende-se por animal vadio qualquer animal de companhia que não tenha lar ou que se encontre fora dos limites do lar do seu proprietário ou detentor e não esteja sob o controlo ou vigilância directa de qualquer proprietário ou detentor. 6 - Entende-se por autoridade competente a autoridade designada pelo Estado membro.

Artigo 2º

Campo de aplicação e execução
1 - As Partes comprometem-se a tomar as medidas necessárias para pôr em execução as disposições da presente Convenção no que se refere:
a) Aos animais de companhia possuídos por uma pessoa singular ou colectiva em qualquer lar, em qualquer estabelecimento que se dedique ao comércio ou à criação e manutenção a título comercial desses animais, bem como em qualquer abrigo para animais; b) Se for o caso, aos animais vadios.
2 - Nenhuma disposição da presente Convenção prejudica a execução de outros instrumentos para a protecção dos animais ou para a preservação das espécies selvagens ameaçados. 3 - Nenhuma disposição da presente Convenção prejudica a faculdade das Partes de adoptar normas mais rígidas para assegurar a protecção dos animais de companhia ou de aplicar as disposições que se seguem a categorias de animais que não são expressamente mencionadas no presente instrumento.

CAPÍTULO II

Princípios para a posse de animais de companhia


Artigo 3º

Princípios fundamentais para o bem-estar dos animais
1 - Ninguém deve inutilmente causar dor, sofrimento ou angústia a um animal de companhia. 2 - Ninguém deve abandonar um animal de companhia.

Artigo 4º

Posse
1 - Qualquer pessoa que possua um animal de companhia ou que tenha aceitado ocupar-se dele deve ser responsável pela sua saúde e pelo seu bem-estar. 2 - Qualquer pessoa que possua um animal de companhia ou que dele se ocupe deve proporcionar-lhe instalações, cuidados e atenção que tenham em conta as suas necessidades ecológicas, em conformidade com a sua espécie e raça, e, nomeadamente:
a) Fornecer-lhe, em quantidade suficiente, a alimentação e a água adequadas; b) Dar-lhe possibilidades de exercício adequado; c) Tomar todas as medidas razoáveis para não o deixar fugir. 3 - Um animal não deve ser possuído como animal de companhia se: a) As condições referidas no anterior nº 2 não forem preenchidas; ou b) Embora essas condições se encontrem preenchidas, o animal não possa adaptar-se ao cativeiro.

Artigo 5º

Reprodução
Qualquer pessoa que seleccione um animal de companhia para a reprodução deve ter em conta as características anatómicas, fisiológicas e de comportamento que possam pôr em perigo a saúde ou o bem-estar da cria ou da fêmea.

Artigo 6º

Limite de idade para a aquisição
Nenhum animal de companhia deve ser vendido a pessoas com menos de 16 anos sem o consentimento expresso dos pais ou de outras pessoas que exerçam o poder paternal.

Artigo 7º

Treino
Nenhum animal de companhia deve ser treinado de modo prejudicial para a sua saúde ou o seu bem-estar, nomeadamente forçando-o a exceder as suas capacidades ou força naturais ou utilizando meios artificiais que provoquem ferimentos ou dor, sofrimento ou angústia inúteis.

Artigo 8º

Comércio, criação e manutenção a título comercial, abrigos para animais
1 - Qualquer pessoa que, no momento da entrada em vigor da Convenção, se dedique ao comércio ou, a título comercial, à criação ou à manutenção de animais de companhia ou que dirija um abrigo para animais deve, num prazo apropriado, a determinar por cada uma das Partes, declará-lo à autoridade competente. Qualquer pessoa que tencione dedicar-se a uma destas actividades deve declarar esta intenção à autoridade competente. 2 - Esta declaração deve indicar:
a) As espécies de animais de companhia que são ou serão envolvidas; b) A pessoa responsável e os seus conhecimentos; c) Uma descrição das instalações e equipamentos que são ou serão utilizados.
3 - As actividades acima referidas apenas podem ser exercidos desde que:
a) A pessoa responsável possua os conhecimentos e a aptidão necessários ao exercício desta actividade, quer devido a formação profissional, quer a experiência suficiente com animais de companhia; b) As instalações e os equipamentos utilizados para a actividade satisfaçam as exigências indicadas no artigo 4º.
4 - Com base na declaração feita de acordo com o disposto no nº1, a autoridade competente deve determinar se as condições referidas no nº3 se encontram ou não preenchidas. No caso de não estarem preenchidas de modo satisfatório, a autoridade competente deve recomendar medidas e, se tal for necessário para a protecção dos animais, proibir o início ou a continuação da actividade. 5 - A autoridade competente deve, em conformidade com a legislação nacional, controlar se as condições acima referidas se encontram ou não preenchidas.

Artigo 9º

Publicidade, espectáculos, exposições competições e manifestações similares
1 - Os animais de companhia não podem ser utilizados em publicidade, espectáculos, exposições, competições ou manifestações similares, excepto se:
a) O organizador tiver criado as condições necessárias para que esses animais sejam tratados de acordo com as exigências do artigo 4º, nº2; b) A sua saúde e bem-estar não forem postos em perigo.
2 - Nenhuma substância deve ser administrada a um animal de companhia, nenhum tratamento deve ser-lhe aplicado, nem nenhum processo deve ser utilizado a fim de aumentar ou de diminuir o nível natural das suas capacidades:
a) No decurso de competições; ou b) Em qualquer outro momento, se tal puder constituir um risco para a saúde ou para o bem-estar desse animal.

Artigo 10º

Intervenções cirúrgicas
1 - As intervenções cirúrgicas destinadas a modificar a aparência de um animal de companhia ou para outros fins não curativos devem ser proibidas e, em especial:
a) O corte da cauda; b) O corte das orelhas; c) A secção das cordas vocais; d) A ablação das unhas e dos dentes.
2 - Apenas podem ser autorizadas excepções a estas proibições:
a) Se um veterinário considerar necessária uma intervenção não curativa, quer por razões de medicina veterinária, quer no interesse de um dado animal; b) Para impedir a reprodução.
3 - a) As intervenções no decurso das quais o animal sofrerá ou poderá sofrer dores consideráveis apenas devem ser efectuadas sob anestesia e por um veterinário ou sob o seu controlo. c) As intervenções que não necessitem de anestesia podem ser efectuadas por uma pessoa competente nos termos da legislação nacional.

Artigo 11º

Abate
1 - Apenas um veterinário ou outra pessoa competente pode abater um animal de companhia, excepto em caso de urgência para pôr fim ao sofrimento de um animal e sempre que a assistência de um veterinário ou de outra pessoa competente não possa ser obtida rapidamente ou em qualquer outro caso de urgência previsto pela legislação nacional. O abate deve ser efectuado com o mínimo de sofrimento psíquico e moral, tendo em conta as circunstâncias. O método escolhido, excepto em caso de urgência, deve:
a) Quer provocar uma perda de consciência imediata, seguida da morte;

b) Quer começar pela administração de uma anestesia geral profunda, seguida de um processo que causará morte certa. A pessoa responsável pelo abate deve certificar-se de que o animal está morto antes da eliminação da sua carcaça.

2 - São proibidos os seguintes métodos de abate:
a) Afogamento e outros métodos de asfixia, se não produzirem os efeitos referidos no nº1, alínea b);

b) Utilização de qualquer veneno ou droga cuja dosagem e aplicação não possam ser controladas de modo a obter os efeitos referidos no nº1;

c) Electrocussão, a menos que seja precedida da perda imediata de consciência.

CAPÍTULO III

Medidas complementares relativas aos animais vadios

Artigo 12º

Redução do número de animais vadios
Sempre que uma Parte considere que o número de animais vadios constitui, para essa Parte, um problema, deve tomar as medidas legislativas e ou administrativas necessárias para reduzir o seu número através de métodos que não causem dor, sofrimento ou angústia evitáveis. a) Tais medidas devem implicar que:
i) Se esses animais forem capturados, isso seja feito com um mínimo de sofrimento físico e moral, tendo em conta a natureza do animal; ii) Quando animais capturados forem retidos ou mortos, isso seja feito em conformidade com os princípios constantes da presente Convenção.
b) As Partes comprometem-se a providenciar:
i) A identificação permanente dos cães e dos gatos por meios apropriados que apenas provoquem dor, sofrimento ou angústia ligeiros ou passageiros, tais como a tatuagem, bem como a inscrição dos números num registo, acompanhada dos nomes e moradas dos proprietários; ii) A redução da reprodução não planificada dos cães e dos gatos, encorajando a sua esterilização; iii) O encorajamento da pessoa que tenha encontrado um cão ou um gato vadio a comunicar tal facto à autoridade competente.

Artigo 13º

Excepções para a captura, detenção e abate
As excepções aos princípios constantes da presente Convenção relativamente à captura, detenção e abate dos animais vadios não devem ser permitidas, excepto quando forem inevitáveis no âmbito de programas governamentais de controlo de doenças.

CAPÍTULO IV

Informação e educação

Artigo 14º

Programas de informação e de educação
As Partes comprometem-se a encorajar o desenvolvimento de programas de informação e de educação para promover, entre as organizações e indivíduos envolvidos na posse, criação, treino, comércio e manutenção de animais de companhia, a tomada de consciência e o conhecimento das disposições e princípios da presente Convenção. Nesses programas, deve ser chamada a atenção, nomeadamente, para os seguintes pontos: a) O treino de animais de companhia para fins comerciais ou de competição ser feito por pessoas com os conhecimentos e a competência adequados; b) A necessidade de desencorajar:
i) A oferta de animais de companhia a pessoas com menos de 16 anos sem o consentimento expresso dos pais ou de outras pessoas que exerçam o poder paternal; ii) A oferta de animais de companhia como prémios, recompensas ou bónus; iii) A reprodução não planificada dos animais de companhia;
c) As eventuais consequências negativas, para a saúde e bem-estar dos animais selvagens, da sua aquisição ou utilização como animais de companhia; d) Os riscos resultantes da aquisição irresponsável de animais de companhia que conduza a um aumento do número de animais não desejados e abandonados.

CAPÍTULO V

Consultas multilaterais

Artigo 15º

Consultas multilaterais
1 - As Partes procedem, num prazo de cinco anos após a entrada em vigor da presente Convenção, e, posteriormente, de cinco em cinco anos, e, de qualquer modo, sempre que uma maioria dos representantes das Partes o solicite, a consultas multilaterais no seio do Conselho da Europa para examinar a aplicação da Convenção, bem como a oportunidade da sua revisão ou de um alargamento de algumas das suas disposições. Estas consultas terão lugar no decurso de reuniões convocadas pelo Secretário-Geral do Conselho da Europa. 2 - As Partes têm o direito de designar um representante para participar nestas consultas. Qualquer Estado membro do Conselho da Europa que não é Parte na Convenção tem o direito de se fazer representar nestas consultas por um observador. 3 - Após cada consulta, as Partes submetem ao Comité de Ministros do Conselho da Europa um relatório sobre a consulta e sobre o funcionamento da Convenção, nele incluindo, caso o considerem necessário, propostas tendentes à alteração dos artigos 15º a 23º da Convenção. 4 - Sob reserva das disposições da presente Convenção, as Partes estabelecem o regulamento interno das consultas.

CAPÍTULO VI

Alterações


1 - Qualquer alteração aos artigos 1º a 14º, proposta por uma Parte ou pelo Comité de Ministros, é comunicado ao Secretário-Geral do Conselho da Europa e transmitida, por seu intermédio, aos, Estados membros do Conselho da Europa, a qualquer Parte e a qualquer Estado convidado a aderir à Convenção de acordo com o disposto no artigo 19º. 2 - Qualquer alteração proposta em conformidade com o disposto no número anterior é examinada, nunca antes de dois meses após a data da sua transmissão pelo Secretário-Geral, numa consulta multilateral onde essa alteração pode ser adoptada por uma maioria de dois terços das Partes. O texto adoptado é comunicado às Partes. 3 - No termo de um prazo de 12 meses após a sua adopção numa consulta multilateral, qualquer alteração entra em vigor, a menos que uma das Partes tenha notificado objecções.

CAPÍTULO VII

Disposições finais

Artigo 17º

Assinatura, ratificação, aceitação, aprovação
A presente Convenção está aberta à assinatura dos Estados membros do Conselho da Europa. Será submetida a ratificação, aceitação ou aprovação. Os instrumentos de ratificação, de aceitação ou de aprovação serão depositados junto do Secretário-Geral do Conselho da Europa.

Artigo 18º

Entrada em vigor
1 - A presente Convenção entrará em vigor no primeiro dia do mês seguinte ao termo de um prazo de seis meses após a data em que quatro Estados membros do Conselho da Europa tiverem expressado o seu consentimento em ficarem vinculados pela Convenção em conformidade com as disposições do artigo 17º 2 - Para qualquer Estado membro que expresse posteriormente o seu consentimento em ficar vinculado pela Convenção, es ta entrará em vigor no primeiro dia do mês seguinte ao termo de um prazo de seis meses após a data do depósito do instrumento de ratificação, de aceitação ou de aprovação.

Artigo 19º

Adesão de Estados não membros
1 - Após a entrada em vigor da presente Convenção, o Comité de Ministros do Conselho da Europa poderá convidar qualquer Estado não membro do Conselho da Europa a aderir à presente Convenção por decisão tomada pela maioria prevista no artigo 20.1, alínea d), do Estatuto do Conselho da Europa e por unanimidade dos representantes dos Estados Contratantes com direito de assento no Comité de Ministros. 2 - Para qualquer Estado aderente, a Convenção entrará em vigor no primeiro dia do mês seguinte ao termo de um prazo de seis meses após a data de depósito do instrumento de adesão junto do Secretário-Geral do Conselho da Europa.

Artigo 20º

Cláusula territorial
1 - Qualquer Estado pode, no momento da assinatura ou no momento do depósito do seu instrumento de ratificação, de aceitação, de aprovação ou de adesão, designar o território ou os territórios aos quais se aplicará a presente Convenção. 2 - Qualquer Parte pode, em qualquer momento posterior, mediante declaração dirigida ao Secretário-Geral do Conselho da Europa, alargar a aplicação da presente Convençao a qualquer outro território designado na declaração. A Convenção entrará em vigor relativamente a esse território no primeiro dia do mês seguinte ao termo de um prazo de seis meses após a data de recepção da declaração pelo Secretário-Geral. 3 - Qualquer declaração feita nos termos dos dois números anteriores pode ser retirada, relativamente a qual quer território nela designado, mediante notificação dirigida ao Secretário-Geral. A retirada produzirá efeito no primeiro dia do mês seguinte ao termo de um prazo de seis meses após a data de recepção da notificação pelo Secretário-Geral.

Artigo 21º

Reservas
1 - Qualquer Estado pode, no momento da assinatura ou no momento do depósito do seu instrumento de ratificação, de aceitação, de aprovação ou de adesão, declarar que faz uso de uma ou várias reservas relativamente ao artigo 6.1 e à alínea a) do n.I 1 do artigo 10.' Nenhuma outra reserva pode ser feita. 2 - Qualquer Parte que tenha formulado uma reserva nos termos do número anterior pode retirá-la, no todo ou em parte, mediante notificação dirigida ao Secretário-Geral do Conselho da Europa. A retirada produzirá efeito na data de recepção da notificação pelo Secretário-Geral. 3 - A Parte que tenha formulado uma reserva relativamente a uma disposição da presente Convenção não pode exigir a aplicação dessa disposição por uma outra Parte; pode, contudo, se a reserva for parcial ou condicional, exigir a aplicação dessa disposição na medida em que ela própria a tenha aceitado.

Artigo 22º

Denúncia
1 - Qualquer Parte pode, em qualquer momento, denunciar a presente Convenção mediante notificação dirigida ao Secretário-Geral do Conselho da Europa. 2 - A denúncia produzirá efeito no primeiro dia do mês seguinte ao termo de um prazo de seis meses após a data de recepção da notificação pelo Secretário-Geral.

Artigo 23º

Notificações
O Secretário-Geral do Conselho da Europa notificará os Estados membros do Conselho e qualquer Estado que tenha aderido à presente Convenção ou que tenha sido convidado a fazê-lo:
a) De qualquer assinatura;

b) Do depósito de qualquer instrumento de ratificação, de aceitação, de aprovação ou de adesão; c) De qualquer data de entrada em vigor da presente Convenção em conformidade com os artigos 18º, 19º e 20º;

d) De qualquer outro acto, notificação ou comunicação relacionados com a presente Convenção.

Em fé do que os abaixo assinados, devidamente autorizados para o efeito, assinaram a presente Convenção. Feito em Estrasburgo, a 13 de Novembro de 1987, em francês e em inglês, fazendo os dois textos igualmente fé, num único exemplar, que será depositado nos arquivos do Conselho da Europa. O Secretário-Geral do Conselho da Europa enviará uma cópia autenticada a cada um dos Estados membros do Conselho da Europa e a qualquer Estado convidado a aderir à presente Convenção. Rombaut van Crombrugge.Erling V. Quaade, Nicolaos Diamantopoulos,Paolo Massimo Antici,Paul Faber Vincent Bruyns,Roald Knoph, Luís Octávio Roma de Albuquerque.

Declaração Universal dos Direitos do Animal

"De boas intenções está o Inferno cheio"


DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO ANIMAL
Preâmbulo

Considerando que todo o Animal tem direitos.
Considerando que o desconhecimento e desrespeito dos ditos direitos conduziram e continuam a conduzir o homem a cometer crimes contra a natureza e contra os animais.
Considerando que o reconhecimento por parte da espécie humana dos direitos à existência das outras espécies de animais constitui o fundamento da coexistência das espécies no mundo.
Considerando que o homem comete genocídios e que exista a ameaça de os continuar a cometer.
Considerando que o respeito pelos animais, por parte do homem, está relacionado com o respeito dos homens entre eles próprios.
Considerando que faz parte da educação, ensinar, desde a infância, a observar, compreender, respeitar e amar os animais.
PROCLAMA-SE O SEGUINTE:

Artigo 1º
Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos direitos à existência.

Artigo 2º
a) Todo o animal tem o direito de ser respeitado.
b) O homem, enquanto espécie animal, não pode atribuir-se o direito de exterminar os outros animais ou de os explorar, violando esse direito. Tem a obrigação de empregar os seus conhecimentos ao serviço dos animais.
c) Todos os animais têm direito à atenção, aos cuidados e à protecção do homem.

Artigo 3º
a) Nenhum animal será submetido a maus tratos nem a actos cruéis.
b) Se a morte de um animal é necessária, esta deve ser instantânea, indolor e não geradora de angústia.

Artigo 4º
a) Todo o animal pertencente a uma espécie selvagem tem o direito de viver livre no seu próprio ambiente natural, terrestre, aéreo ou aquático, e a reproduzir-se.
b) Toda a privação de liberdade, incluindo aquela que tenha fins educativos, é contrária a este direito.

Artigo 5º
a) Todo o animal pertencente a uma espécie que viva tradicionalmente em contacto com o homem, tem o direito a viver e a crescer ao ritmo das condições de vida e liberdade que sejam próprias da sua espécie.
b) Toda a modificação do dito ritmo ou das ditas condições, que seja imposta pelo homem com fins comerciais, é contrária ao referido direito.

Artigo 6º
a) Todo o animal que o homem tenha escolhido por companheiro, tem direito a que a duração da sua vida seja conforme à sua longevidade natural.
b) O abandono de um animal é um acto cruel e degradante.

Artigo 7º
Todo o animal de trabalho tem direito a um limite razoável de tempo e intensidade de trabalho, a uma alimentação reparadora e ao repouso.

Artigo 8º
a) A experimentação animal que implique um sofrimento físico e psicológico é incompatível com os direitos do animal, quer se trate de experimentações médicas, cientificas, comerciais ou qualquer outra forma de experimentação.
b) As técnicas experimentais alternativas devem ser utilizadas e desenvolvidas.

Artigo 9º
Quando um animal é criado para a alimentação humana, deve ser nutrido, instalado e transportado, assim como sacrificado sem que desses actos resulte para ele motivo de ansiedade ou de dor.

Artigo 10º
a) Nenhum animal deve ser explorado para entretenimento do homem.
b) As exibições de animais e os espectáculos que se sirvam de animais, são incompatíveis com a dignidade do animal.

Artigo 11º
Todo o acto que implique a morte de um animal, sem necessidade, é um biocídio, ou seja, um crime contra a vida.

Artigo 12º
a) Todo o acto que implique a morte de um grande número de animais selvagens é um genocídio, ou seja, um crime contra a espécie.
b) A contaminação e destruição do ambiente natural conduzem ao genocídio.

Artigo 13º
a) Um animal morto deve ser tratado com respeito.
b) As cenas de violência nas quais os animais são vítimas, devem ser proibidas no cinema e na televisão, salvo se essas cenas têm como fim mostrar os atentados contra os direitos do animal.

Artigo 14º
a) Os organismos de protecção e salvaguarda dos animais devem ser representados a nível governamental.
b) Os direitos dos animais devem ser defendidos pela Lei, assim como o são os direitos do homem.

Este texto definitivo da declaração Universal dos Direitos do Animal foi adoptado pela Liga Internacional dos Direitos do Animal e das Ligas Nacionais filiadas após a 3ª reunião sobre os direitos do animal, celebrados em Londres nos dias 21 a 23 de Setembro de 1977.
A declaração proclamada em 15 de Outubro de 1978 pela Liga Internacional, Ligas Nacionais e pelas pessoas físicas que se associam a elas, foi aprovada pela organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e posteriormente, pela Organização das Nações Unidas (ONU).

dezembro 06, 2006

Da actualidade das doutrinas


"Se forem feitas sem a benção de Deus, essas acções são de facto crimes. (...) Recusarmo-nos a obedecer a regras. Rebelarmo-nos contra a ordem. É este o pecado original. Só se nos agrarrarmos às leis, aos regulamentos da Igreja, é que seremos redimidos. (...) Prazer selvagem e proíbido; êxtase sem regras, sem limites. Nós, homens, somos criaturas de desejos (...). Temos de nos agarrar à Igreja, seguir as suas regras, cantar a sua liturgia, confessar os nossos pecados, receber a absolvição... Esta conversa de vontade própria não tem qualquer sentido. Os homens não podem depender dos seus próprios corações para os guiarem. A vontade tem de ser controlada, moldada à de Deus - através da coação, se necessário."
Excerto que apesar de ter "saído" da boca de um cardeal que "viveu" há mais de sete séculos, continua atrozmente actual. Malditas religiões de hipócritas e parasitas!

Sinopse da obra:
"Fazendo lembrar as Brumas de Avalon, Jeanne Kalogridis oferece-nos uma grande história de amor e compaixão.
Transportando o leitor para a França do século XIV, terra fértil em hereges - cátaros, gnósticos e templários -, Jeanne Kalogridis conta-nos a história de Sybille, uma rapariga com estranhos e inexplicáveis poderes.
Como se não bastassse a Guerra dos Cem Anos e a Terrível Peste Negra, a Inquisição acende dezenas de milhares de fogueiras para queimar hereges. E quando a avó de Sybile é torturada e queimada, só lhe resta fugir para um convento.
Os seus dons de cura e premonição permitem-lhe subir na hierarquia da Igreja e na admiração do povo que a adora como uma santa. Mas, aos olhos do Papa, Sybille é uma ameaça e uma bruxa que tem de ser atirada ao fogo.
Quando é presa, cabe ao jovem inquisidor Michel interrogá-la. Este agradece a Deus a sua sorte, pois sempre acreditou na santidade de Sybille e assim poderá salvá-la. Mas quando ela lhe conta a sua história, toda a fé do jovem ameaça ruir. Para piorar, de dia sofre pressões para a queimar, e de noite arde de desejo por ela.
No tempo das fogueiras é um livro vitorioso, onde Kalogridis conseguiu criar uma heroína de proporções épicas e um leque de personagens maravilhosas."

dezembro 05, 2006

O enigma da Sétima Tapeçaria


Acabei de ler este livro, de Kelly Jones, cujo tema se baseia numas tapeçarias, de autor desconhecido, que já tive a oportunidade de ver em Paris, no Museu da Idade Média, nas Termas de Clunny.

Para além de estar bem traduzido e revisto, dá-nos a conhecer o mundo misterioso das tapeçarias da série "A Dama e o Unicórnio".

Relata o contexto histórico em que surgiram, romanceia a possibilidade de ter existido uma sétima tapeçaria e, grande mérito, é um espelho muito verídico da psicologia humana.

De facto, traça um quadro das nossas emoções, das lutas interiores que tantas vezes travamos em situações que sentimos não controlar, os medos, as inseguranças decorrentes da possibilidade de não conseguirmos lidar com perdas, a facada que tal constitui para o nosso orgulho...

O que muito se perde se se ficar sempre à espera que outrém dê o primeiro passo e avance enquanto se joga pelo seguro...

Fui buscar a informação que se segue à Wikipédia.

A Dama e o Unicórnio (francês: La dame à la licorne) é o título de um conjunto de tapeçarias francesas frequentemente consideradas como um dos grandes trabalhos da arte medieval na Europa. Estima-se que tenham sido tecidas no final do século XV (circa 1490), na Flandres.
Os tapetes são geralmente interpretados como mostrando os seis sentidos - gosto, audição, visão, olfacto, tacto e "A mon seul désir" (o meu próprio desejo - numa tradução literal), este último interpretado como o amor ou a compreensão.
Cada um dos seis tapetes mostra uma senhora nobre e um unicórnio, e alguns incluem um macaco ou um leão na cena. As flâmulas, bem como os brasões de armas do Unicórnio e do Leão nos tapetes carregam as armas do nobre que os patrocinou, Jean Le Viste, poderoso na corte de Carlos VII de França. São feitos no estilo mille-fleurs.
Os tapetes foram descobertos em 1841 por Prosper Mérimée, no castelo de Boussac.


Segue-se uma breve descrição de cada peça:



Paladar
A Dama serve-se de um doce num prato, seguro por uma criada. Seus olhos fixos num papagaio que está apoiado em sua mão esquerda. O leão e o unicórnio estão deitados atrás delas, como uma moldura à senhora. Um macaco aparece aos pés, comendo um dos doces.

Audição
A Dama toca um instrumento sobre uma mesa. A criada jaz em pé do lado oposto, apoiando-se no instrumento. O leão e o unicórnio também ornam o centro da figura, mas nesta tapeçaria suas posições estão invertidas - de forma que eles ficam ao centro da composição.

Visão
A senhora está sentada, segurando em sua mão direita um espelho. O unicórnio está ajoelhado, com sua pata direita no colo da dama, a quem contempla pelo reflexo no espelho. O leão está ao lado esquerdo.
Olfacto
A senhora está de pé, compondo uma grinalda de flores. Sua criada segura uma cesta de flores, ao seu alcance. Novamente leão e unicórnio ornam a figura, enquanto o macaco surge, tendo apanhado uma das flores, encerrando assim a alegoria, cheirando-a.
Tacto
A dama ergue uma das mãos, tocando o chifre do unicórnio, enquanto a outra aponta para cima. O leão jaz, observando a cena.

A Mon Seul Désir
Esta tapeçaria é mais larga que as outros, e tem um estilo um pouco diferente. A senhora se levanta em frente a uma barraca, e na parte superior lê-se: A Mon Seul Désir ("para meu exclusivo desejo"). A criada está ao pé, à direita, abrindo seu peito. A dama está colocando um colar, com o qual aparece nas demais peças. A sua esquerda um banco com bolsas de moedas. O leão e o unicórnio estão em suas posições normais.
Esta tapeçaria tem suscitado diversas interpretações. Uma delas diz que a dama pondo o colar no peito expressa a renúncia das paixões, despertadas pelos outros sentidos, e como uma livre afirmação da vontade. Outros dizem que representa o sexto sentido do entendimento. Outras tantas vêem como o amor, ou a virgindade.




Alergias


Hoje, graças ao reboliço matinal de que foram acometidas a Gaia, a Mary, a Trufa, a Isca, a Salsa, o Taco, o Creamy e o Pepi, e que já é normal acontecer entre as seis e as sete da manhã, de preferência por cima da minha cabeça e do meu corpo, fiquei com um ataque de alergia. Para impedir que os espirros, fungadelas, comichão nos olhos e na garganta atingissem proporções infernais para quem tem de passar o dia a trabalhar, lá tomei o recomendado anti-histamínico.
Praga das pragas; tem acção retardada, nunca mais acaba e sinto-me como se tivesse levado uma mocada.
Só me apetece, à falta de melhor, deitar-me no chão... Que sono!


dezembro 04, 2006

Escolhas


"Mas uma mulher na Idade Média - teria alguma escolha? Certamente que esta não fora a verdadeira vocação de Adèle, ou a sua verdadeira escolha. E então Alex reflectiu na sua própria escolha. (...) . Mesmo com liberdade para escolher, nem sempre se escolhe bem."

Kelly Jones in "o Enigma da Sétima Tapeçaria"

novembro 30, 2006

Preparar 2007

Bangkok, Maio 2006

Recebi este texto através de email...

Aqui ficam algumas sugestões:

1. Em Novembro, devemos começar a preparar a casa para o novo ano que se aproxima. REMOÇÃO do que se tornou INÚTIL, está IMPERFEITO e provoca LEMBRANÇAS RUINS... Assim, devemos selecionar o que desejamos manter na nossa casa: roupas, calçados, CDs, livros, bijuterias, bonés, objectos diversos, fotos, etc.

2. É preciso mudar a "cara" da casa. Vários aspectos podem ser examinados: trocar quadros de lugar; renovar as fotos dos porta-retratos; modificar a arrumação dos móveis, por exemplo, trocar uma poltrona de lugar; pintar paredes que necessitem disso ou escolher uma parede para ganhar uma nova cor; e uma ação muito importante: renovar as plantas do interior da casa. Levar as actuais para a varanda ou o jardim, e decorar a sala com novas plantas. Se possível, pôr uma orquídea em algum ponto da sala. A orquídea é a flor mais positiva que existe.

3. Utilizar elementos decorativos próprios das Festas. E fruteiras com maçãs, laranjas, tangerinas, uvas, caquis; e pratos com frutas secas, como damasco, tâmaras, uvas-passas, etc. Tudo isso é símbolo de Prosperidade.

4. No Natal, cuidar para que a noite seja de paz, alegre, com a família e amigos reunidos para celebrar o nascimento de Cristo Jesus- porque este é o maior motivo para tanto festejos e, não, a distribuição de presentes... (para quem acredita, o que não é de todo o meu caso - FPG)

5. No Réveillon, muita alegria, mesa farta, casa totalmente ILUMINADA, portas e janelas ABERTAS, para que 2006 se despeça com festejos; e 2007 tenha as boas-vindas como a Esperança pede.

6. As roupas para 31 de Dezembro devem ter VERMELHO (tons que vão do rosa ao púrpura, passando pelo laranja, coral, vinho) ou AMARELO (do claro até ao dourado). Preferindo seguir a tradição do BRANCO, use acessórios num daqueles tons, ou seja, branco com dourado ou branco com vermelho.

7. Motivo dessas cores: 2007 será um ano regido pelos elementos FOGO e ÁGUA, cumprindo o Ciclo Destrutivo das Cores, ou seja, a ÁGUA apagando o FOGO, elemento que rege o Sucesso. Daí que o reconhecimento pessoal, social e profissional exigirá muito mais esforço no próximo ano. Então, o FOGO precisa ser reforçado a partir da noite de 31, e vermelho e amarelo são as cores do elemento FOGO.

8. Mas, além dessas dicas para a casa e as vestimentas, é FUNDAMENTAL que todos se preparem emocionalmente! Terminar o ano torcendo para 2007 chegue logo porque "2006 foi uma droga", porque "não consegui o que queria", porque "aconteceu isso ou aquilo" é terminar o ano de modo triste, negativo. E ninguém merece se sentir assim... Todos devem fazer um exercício positivo, para terminar 2006 com alegria, agradecendo as pequenas vitórias, as conquistas, os encontros e reencontros. O facto de estar vivo e com saúde é o suficiente para se festejar, não é mesmo? E, quem sabe das coisas, vai agradecer até as crises, porque, com elas, cresceram, se transformaram...

9. No dia 18 de fevereiro, começará o Ano do Porco (ou Javali). Um ano em que haverá muitas festas, reuniões, os amigos estarão sempre reunidos, mas haverá ilusão, muita ilusão... Será mais fácil se comportar com ingenuidade, o que provocará decepções. Então, o conselho é viva a vida, mas mantenha-se alerta. O lema é: "Nem tudo é como parece".

10. Do ponto de vista mundial, será um ano em que os conflitos serão maiores. O ano 2007 será FOGO YIN e os anos FOGO YIN são marcados pela violência nos conflitos mundiais. Por exemplo, foi num ano FOGO YIN que Hiroshima e Nagasaki receberam as bombas atômicas, e foi num ano com essa mesma característica que as torres gêmeas caíram sob um ataque terrorista. Daí que se pode prever algo no gênero em 2007. Que Deus tenha piedade dos justos e inocentes!

11. Como curiosidade, no dia primeiro de janeiro, não se pede nada emprestado nem se empresta. E não se toca em tesouras...

Tudo para preservar a Prosperidade e evitar dificuldades durante o ano!

Cristais


Em muitas das antigas civilizações os cristais eram utilizados como meio de cura e equilíbrio.
Na Índia, Grécia e Egipto, eram usados para potenciar remédios e auxiliar na prática da medicina, ajudando muitas pessoa a recuperarem a sua saúde e equlíbrio emocional e físico.
Isto porque os cristais amplificam as energias (por isso são usados até nas técnicas relacionadas com transmissões), para além de conterem na forma mais pura, as cores que são necessárias para nosso equilíbrio físico, biológico e espiritual. Os cristais são poderosas ferramentas que trazem, de modo natural, o equilíbrio para as partes físicas, psicológicas e espirituais dos seres humanos.
Eles representam o poder da natureza superior.
Podem ser usados em conjunto com outras terapias, tendo uma afinidade especial com a terapia de cores.
Todos nós temos energias e todos nós podemos transmiti-las para os outros ou absorvê-las, no campo que escolhemos. Os cristais ajudam-nos a fazê-lo, dimensionando-as e ampliando-as. Para que tal seja possível, teremos que limpá-los, energizá-los e programá-los periodicamente. Os cristais podem ser usados nas práticas de meditações e visualizações.
Podemos invocar a presença de um cristal através de nossos pensamentos, apenas imaginando sua cor. Eles aportam energia vibracional de alta frequência, amplificando-a e focalizando-a nas energias naturais do corpo e da mente. É importante saber que quando um cristal entra em contato com o corpo físico, ele absorve muitas energias negativas.

Parquímetros - essa maldição


Estou farta de parquímetros, principalmente dos de apenas duas horas, cuja intenção é instigar a caça fácil à multa. Sim, não venham com tretas!
Encherem ruas residenciais e de serviços, públicos e privados, com essas estúpidas máquinas, para apenas duas horas, tem, por certo, a intenção de encher os bolsos dos broncos e corruptos polícias e das companhias de parques.
Caso contrário, seriam colocados parquímetros com uma duração superior, que não obrigasse as pessoas a estarem com a preocupação de recarregar as máquinas, tendo para isso de (contra a lei) sair do local de trabalho a meio da manhã e da tarde.
Porque me refiro aos polícias como broncos e corruptos? Apenas para não usar uma linguagem mais forte.
Porque estão nas ruas sem fazer nada, à espera que o tempo expire para de imediato, prepotência do poder, aplicarem a multa cuja percentagem receberão.
E não deixa de ser curioso e questionável o facto de tantas vezes multarem os carros cujo parquímetro expirou, deixando impunes outros que em vez de na zona autorizada estão mesmo estacionados em local proíbido (a percentagem que lhes irá para o bolso não deve ser tão significativa nestes casos); ou o de fazerem "andolitá" tu levas e tu não... ou seja, por exemplo, na Rua do Volong, multarem todos os carros que ali estão (OK, já sabemos que é proíbido), abrindo uma excepção para o bonito Jaguar azul/cinza metalizado cujo dono provavelmente dá uns maravilhosos lai-si, não só em período de Ano Novo Chinês...
É este o espelho da administração que se quer transparente!
Lá me lembro outra vez d' "O Triunfo dos Porcos"!

novembro 29, 2006

Inacreditável insensibilidade


De vez em quando, quando sinto que aguentarei as várias dolorosas narrativas quase diariamente editadas no www.embuscadeumdono.blogsopt.com, lá vou lendo os apelos desesperados que os que gostam de animais, e em especial de cães, lá vão deixando.
Hoje fiquei siderada com o caso do Alex.
Onde é que as pessoas têm o coração, as emoções, os resquícios de solidariedade?
Como é que este e outros casos são possíveis num país que se quer de "gente civilizada"?
Já não falo dos que fizeram o mal, porque infelizmente proliferam por todo o lado, mas dos que ao longo de dois dias se mostraram insensíveis e incapazes de "dar uma mão" àquele pobre cão.
Se calhar teriam a mesma postura se de uma pessoa se tratasse...
E como é que as autoridades nada fizeram? Para que é que foram eleitos ou contratados?
Quantos Alex, animais e humanos, existirão todos os dias em Portugal?
Que raiva!

novembro 28, 2006

O encanto das férias

Paço de Arcos, Setembro 2006

Um dos encantos das idas a Portugal são as doses de mimo que recebo das minhas sobrinhas, as invariáveis perguntas sobre "como estão os cães?", "porque é que quando aqui é dia em Macau já é noite?", "porque é que a tia não vem viver para ao pé de nós?"...
Desta vez tinha mais uma sobrinha à minha espera...
Ainda não me consegue dar mimos, apesar de ter começado a sorrir quando falava com ela; doce e calma, passou horas a dormir nos meus braços. Da próxima vez que a vir já vai estar a andar!
Com estes adoráveis pézinhos!

Foi esta a Lua

Algures sobre a Penísula Ibérica, Setembro de 2006

No dia 7 de Setembro, enquanto um avião me levava a caminho de Portugal, foi esta a Lua que ao anoitecer brilhava sobre a Península Ibérica, dando uma luz especial ao meu regresso, temporário, a casa.

A propósito dos Cátaros



Mais do que uma vez, em vários livros que li nos últimos anos, foi feita referência aos cátaros, considerados pela igreja católica uma seita herética.

Que aliás, como a tantos outros que punham as suas doutrina e desbundas gastronómicas, financeiras e sexuais em dúvida, os pios católicos trataram de exterminar; como dizem "lembra-te homem que és pó e que ao pó hás-de voltar" reduziram-nos a pó em imensas fogueiras, algumas das quais colectivas.

Ontem acabei de ler "O Tesouro de Montségur", da autoria de Nita Hughes, editado (mal revisto) pela Difel.

Apesar de ter um fim arranjado à pressa, tem a vantagem de nos dar a conhecer melhor a zona e o contexto histórico em que o movimento floresceu, se expandiu e foi exterminado.

Pena que não lhe tenham sido acrescentados mapas (da realidade do Séc. XIII e da actual) e uma lista de bibliografia consultada.

Resolvi saber mais e fui à Wikipedia.

É de lá o texto que se segue (trabalhado por mim) e que, tiveram a preocupação de ressalvar, não é imparcial:



O catarismo, do grego katharos, que significa puro, foi uma religião cristã da Idade Média surgida no Limousin (França) ao final do século XI, apresentada por alguns como um sincretismo cristão, gnóstico e maniqueísta, manifestado num extremo ascetismo. No entanto, os principais historiadores do catarismo actuais percebem este movimento como intrinsecamente cristão e relativamente independente de movimentos anteriores, derivando a sua concepção gnóstica do universo de uma leitura independente das Escrituras Sagradas, especialmente o Novo Testamento. Os cátaros concebiam a dualidade entre o espírito e a matéria, relacionados respectivamente com o bem e o mal absolutos.
Foram condenados pelo 4º Concílio de Latrão em 1215, pelo Papa Inocêncio III, e aniquilados por uma cruzada e pelas ações da Inquisição, tornada oficial em 1233.
Também chamados albigenses, rejeitavam os sacramentos católicos. Aqueles que recebiam o baptismo de espírito, consolamentum, eram às vezes denominados "perfeitos" (termo muitas vezes utilizado pelos seus inimigos, para menosprezá-los), mas preferiam ser chamados simplesmente de "bons cristãos", levavam uma vida de castidade e austeridade e podiam ser tanto homens quanto mulheres. Os crentes tinham obrigações menores; recebiam o consolamentum na hora da morte.
Apesar desta hierarquia, os cátaros não restringiam a experiência transcendental, e/ou divina (no caso, também gnóstica) aos mais graduados, mas a qualquer um que assim a desejasse e experimentasse.
Esst concepção sem hierarquia da espiritualidade foi considerada pela igreja católica uma ameaça para a fé e a unidade cristã, já que atraiu numerosos adeptos. Assim sendo, o catarismo foi considerado herético e contra ele foi estabelecida a Cruzada albigense (1209-1229). A cruzada teve parte de interesses políticos, já que as localidades onde se praticavam o catarismo (nota: esta religião era conhecida por sua tolerância religiosa ao passo que conviviam, nos mesmos reinados, judeus, pagãos, e até mesmo católicos) encontravam-se ligadas ao reino da França, porém independentes do mesmo.
No início do século XII, a Igreja católica presenciará a difusão da heresia dos cátaros ("Kataroi", puro em grego) ou albigenses (nome derivado da cidade de "Albi", na qual vivia um certo número de heréticos) que se propagará no território do Languedoc, sudoeste da França (da língua occitâna da região – “Língua do Oc”; Oc= ”Sim”, em oposição à “Langue d’Oui”, do norte da França). Esta região também se designava frequentemente por "Occitânia”, que advém das mesmas raízes linguísticas.
Antes de tudo, é conveniente ressaltar que o catarismo não pertence exclusivamente ao Languedoc, nem o Languedoc deve ser visto exclusivamente sobre o prisma do catarismo. Aderentes à doutrina cátara recebem diferentes nomes no país em que se inserem: Na Itália, eram conhecidos como “patarinos”, na Alemanha como “ketzers”; na Bulgária, como “bogomils”. Existiram cátaros na França, na Catalunha, na Itália, na Alemanha e, ao que parece, em Inglaterra.

Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisaria de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar. Eram dualistas e acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satanás), que teria criado o mundo material e o mal. Não concebiam a ideia de inferno, pois no fim o deus do bem triunfaria sobre o deus do mal, e todos seriam salvos. Praticavam a abstinência de certos alimentos como a carne e tudo o que proviesse da procriação. Jejuavam antes do Natal, Páscoa e Pentecostes, nem matavam qualquer espécie animal; não prestavam juramento, base das relações feudais na sociedade medieval.
De facto, seguindo a doutrina evangélica apresentada no Sermão do Monte por Jesus, os cátaros negavam-se a seguir o sistema feudal de juramentos: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um só cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não; pois o que passa daí, vem do Maligno." (Mateus 5; 33-37) É bom lembrarmos que o sistema feudal se fundamentava nos juramentos de um homem a outro. A palavra empenhada era o documento que circulava. A negação do valor do juramento era algo grave na sociedade medieval.

Os cátaros organizaram uma igreja e seus membros estavam divididos em crentes, perfeitos e bispos. As pessoas tornavam-se perfeitas (homens bons) pelo "ritual do consolamentum" (esta cerimônia consistia na oração do Pai Nosso; reposição da veste, preta no início, depois azul, substituída por um cordão no tempo da perseguição. Tocava-se a cabeça do iniciante com o Evangelho de são João, e o ritual terminava com o beijo da paz). Os crentes podiam abandonar a comunidade quando quisessem, eram casados e podiam ter filhos. Dessa forma, poderiam levar uma vida agradável, obtendo o perdão e sendo salvos.
Durante o período das perseguições as igrejas cátaras foram destruídas, os ofícios religiosos eram realizados em cavernas, florestas e casas de crentes. A doutrina cátara foi aceite por contrariar alguns dogmas cristãos, principalmente no que se refere ao regresso à pobreza e ao retorno do cristianismo primitivo.
A partir de 1140, a Igreja começa a tomar medidas para combatê-la, sendo que no início tentava atrair os heréticos à fé católica por meio da pregação.
O catarismo foi condenado pelo Concílio Regional de Toulouse em 1119, mas até 1179, Roma se satisfazia apenas em enviar pregadores ao Languedoc. São Bernardo e São Domingos procuraram dissuadir a população através do diálogo, mas ao verificar seu fracasso, passaram a estimular a violência. Os dominicanos se mostrariam particularmente sanguinários na luta contra os cátaros. Em 1179, o Terceiro Concílio de Latrão pediu às autoridades civis para que interferissem.
Em 1208, os homens de Raimundo VI, Conde de Toulouse, foram acusados de assassinar o legado papal, Pedro de Castelnau, o que foi provavelmente uma armadilha. Inocêncio III decidiu pregar a Cruzada contra os Albigenses. Esta foi liderada por franceses do Norte sob o comando de Simão de Montfort, que se tornou poderoso na região. Um grande número de terras dos nobres da região passaram para Simão de Montfort, graças à sua competência militar e dedicação à causa católica. Sua actuação militar utilizava a violência e uma crueldade sem nenhuma piedade, o que lhe angariou muitos inimigos.
Os cátaros resistiram durante quatro anos (1200-1213). A sua última fortaleza, Montségur, caiu em 1244. Mas nem por isso o Catarismo desapareceu.
A tomada de Béziers (1209) foi um verdadeiro massacre. Era impossível discernir os Cátaros entre a população Católica da cidade. Conta-se que o legado papal, Arnold de Citeaux , teria dito na época: "Matem a todos. Deus saberá reconhecer os seus".
A maior parte das terras atingidas pela heresia pertencia à província de Narbona, e à região de Albi ligada à província de Bourges. O Languedoc foi anexado a França em 1229 pelo "Tratado de Meaux". O êxito da propagação da heresia nos bispados do Languedoc pode ser explicado pela situação política da região; independente do reino da França, as altas autoridades eram os grandes senhores feudais, o conde de Toulouse e o visconde de Béziers, ambos simpatizantes da heresia cátara.
Os cátaros, a exemplo dos primeiros cristãos, levavam uma vida ascética de alta espiritualidade, vivendo, na prática, um cristianismo puro, numa total auto-renúncia a tudo o que era deste mundo. Eram conhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo, ao serviço do mundo e da humanidade, um verdadeiro exemplo de amor ao próximo. Os cátaros galgavam o caminho da transformação ou da transfiguração.

Amiga


Estou a torcer por ti... Sabes disso.
Tem calma, respira fundo, despacha essa maldita cadeira!
Não te esqueças que esta viagem e este mês e meio vão ser o começo da tua/vossa nova vida.
Logo telefono-te.
Lambidelas da Mary e da Gaia... e dos outros todos!

80 Anos


A 28 de Novembro de 1926 nasceu, em Cantanhede, o meu Pai.
Parabéns Pai!
Não posso estar aí mas, apesar disso, parte de mim vai estar na surpresa que te está reservada para a Casa das Palmeiras.
Os primos não te vão levar para a falada "festa só dos homens", mas quase todos vão lá estar contigo.
Divirtam-se muito e tirem as fotografias da praxe, para que eu possa viver à distância o que foi mais um dia de família.
E tu goza muito, tem cuidado contigo para que daqui a 10 anos, como a tia Luisa, possas estar a soprar 90 velas, rodeado por todos nós.

agosto 18, 2006

Sem-abrigo


Amanhã, 19 de Agosto (porque é o 3o. Sábado do mês), celebra-se o "Dia Nacional dos Animais Sem-Abrigo", criado nos EUA.
Por coincidência, resolvemos fazer um dia de adopção para tentarmos encontrar famílias para alguns dos nossos cães, caso contrário não poderemos continuar a receber novos necessitados.
Este, o Brushy, com outros 5, foi salvo um dia antes de sair do corredor da morte para a ponta da injecção letal.
Parece mentira, não é?

Os 15 anos do Gaspar


O meu "porta-chaves", o bebé velhinho da dona, faz 15 anos.
Fui buscá-lo no dia do Portugal-Holanda (Euro 2004), e fiquei chocada com aquela coisa eléctrica e estridente, parecida com um morcego a pilhas...
Todo rapado, com umas orelhas a competirem com as do Dumbo, não correspondia de todo à imagem que eu idealizara. E aquele frenesim todo!
À noite tentei arranjar-lhe donos, entre os que se juntaram na Torre para verem o jogo...
Ninguém me inspirou a confiança suficiente para tomar conta de um cão com quase 13 anos, que acabava de perder a 3a. família porque vinha aí um bebé e alguém achava que os cães podem provocar abortos!...
Ao fim de uma semana já não conseguia pensar em desfazer-me dele; e assim surgiu o 6. elemento da "matilha amestrada".
Tenho medo e não quero que este seja o último aniversário que passa comigo, apesar de já não ver bem e de estar muito mouco; adora passear de carro, mimos e massagens, esfregar-se nos lençóis e perceber que o estamos a desafiar para brincar. Espero que continue saudável e com vitalidade como até aqui.
E que me acompanhe no dia em que eu voltar para Portugal.

agosto 09, 2006

Pentatia


No dia 2 de Agosto, às 8h38m (hora de Lisboa) entrou mais um amor na minha vida - Clara, a sobrinha número 5!
Só a conheço através de fotografia, mas dia 8 de Setembro vou poder agarrá-la, sentir aquele mágico odor que só os bébés têm e que ficará, com outras recordações doces, guardado no armário dos meus sentidos...

julho 14, 2006

Parir é dor e criar é amor

Coloane, Julho 2006

A Gaia, o Omar, o Tyro, a Hera e o Pasha têm quase dois meses (faltam 2 dias).
Já todos saíram do ninho que foi a minha casa; a Gaia foi viver com o Café que também lá viveu, assim como o Eros, a que se juntaram a Hera e o Omar; o Pasha e o Tyro também vão, após voltas inesperadas de algumas vidas, ficar a viver juntos.
No Domingo fizeram-me uma visita... foi tão bom voltar a vê-los, lindos, ternurentos e grandes, que grandes! Todos 100% salsichas como a mãe, mas a Gaia e o Tyro com a marca peluda do pai completamente evidente!
Recordar o que foram as tão rápidas seis semanas em que, dia após dia, os vi crescer é vertiginoso... tantas fotografias ficaram por tirar, filmes por fazer!
Os cordões umbilicais que caíram ao Pasha, à Gaia e ao Omar pouco mais de 24 horas depois de terem nascido, enquanto que a Hera e o Tyro "esperaram" cerca de 3 dias, o lento desabrochar dos olhos e dos ouvidos, os primeiros passos do Omar que se despachou mais cedo por ser o mais leve, cinco caudas a abanar freneticamente quando nos viam...
Diz o povo que "parir é dor e criar é amor"...
Com os meus cãezinhos vivi esse ditado - quando nasceram eram uns rolos inexpressivos (confesso que compreendi a hesitação das parturientes quando olham para os seus bebés recém-nascidos e são acometidas pela horrível sensação de não encontrarem em si o amor avassalador que esperavam lhes inundasse os corações ao contemplá-los), que guinchavam quando lhes pegávamos ... Depois foram-se acostumando ao toque das mãos, diferente das lambidelas e focinhadas da mãe, a reagir quando os chamávamos, até ao guincharem desesperadamente pela nossa atenção.
Invadiram-nas e tornaram mais bonitas a minha vida e as de alguns dos meus amigos... e todos os novos donos estão completamente babados e felizes com os seus Marycreamosos. E eu orgulhosíssima! Estão lindos, saudáveis - pudera! alimentados com suplementos de leite, sopas de carne, vegetais e maçã, vitaminas, logo a partir das 3 semanas para que a Mary não se desfizesse e eles não ficassem subnutridos -, brincalhões, felizes.
Fiquei mais rica com esta dádiva inesperada.

julho 04, 2006

Sempre que a vida fecha uma porta, abre uma janela

Macau, Maio 2006

Hoje de manhã salvei um passarinho verde, minúsculo, dos que os chineses levam em gaiolas para o Jardim Camões!
Estava no muro do meu jardim, com ar de quem não se sentia muito bem; quando tentei apanhá-lo voou para dentro do jardim e lá andei, não sei quanto tempo, de rabo para o ar à procura dele entre os galhos dos vários arbustos e pequenas árvores, certa de que estava por ali... Afinal pousara simplesmente num galho que ficava à altura dos nossos olhos, enquanto eu e a minha empregada procurávamos com afinco nos mais escondidos!
Tinha os olhos cobertos com crostas (um ligeiramente aberto); levei-o para casa...
E a gripe das galinhas?
Estão sempre a publicitar que não devemos agarrar pássaros selvagens e muito menos doentes! Se os veterinários se recusarem a tratá-lo o que faço? Tratamento caseiro! "A necessidade aguça o engenho"... água morna para amolecer as crostas e figas para que a inflamação não tivesse provocado danos irreversíveis. Como já estava(mais uma vez)atrasada pedi à minha empregada que tomasse conta dele.
Quando telefonei para saber o que se passava, já tinha ido à sua vida para a árvore grande ao lado de minha casa...
Depois do ninho vazio, uma história com final feliz!

O tempo não cura nada...

Coloane, 2003

Alguém afirmou: "O tempo não cura nada... apenas tira o incurável do centro das atenções". Tal não será também uma forma de cura? Afinal todas as terapias são válidas (desde que resultem...)!

Ninho vazio

Coloane, Abril 2006

Há semanas fui surpreendida com o aparecimento de um ninho, com três ovinhos, numa das árvores do meu jardim. Um presente da Primevera! Nem o facto de aquela ser casa de tantos cães afastou a decidida mãe que, entre algumas saídas para se alimentar, lá zelava com carinho os seus futuros rebentos, assustadiça sempre que nos aproximávamos.
A Natureza é tão perfeita que nem o vento e a chuva trazidos por um tufão, não muito ameaçador, conseguiram destronar aquela pequena obra de arte.
Primeiro um, no dia seguinte os outros dois, lá apareceram os carequinhas depenados, cujos bicos se esticavam sempre que pressentiam algum movimento perto. As penas foram começando a desenvolver-se. Ontem encontrei o ninho vazio... a mãe esvoaçou numa árvore perto... de repente encontrei um dos bebés morto no chão, enquanto outro, a custo, tentava equilibrar-se numa das mangueiras, ainda sem fruto, ali perto.
Como a noite se aproximava, resolvi colocá-lo de novo no ninho pois ali estaria mais protegido - apesar do instinto protector ter tentado sugerir-me que o levasse para dentro e o alimentasse durante mais uns dias, até que estivesse mais forte para resistir às chuvadas que quotidianamente vão caíndo. Enquanto o tinha na mãos comecei a sentir uma horrível comichão na cara, no pescoço, nos braços... Só depois de o ter deixado a salvo no ninho percebi o que se passava: estava repleta de minúsculos (quase microscópicos insectos). Fiquei sem perceber de onde tinham aparecido. Se da mangueira, se do passarinho... Tive de ir para dentro tomar um banho.
Cerca de duas horas mais tarde resolvi verificar se estava tudo bem, se a mãe o estava a proteger. Não, nada estava bem... a mãe não estava e, quando me aproximei, nada mexeu dentro do ninho... o meu segundo passarinho tinha morrido e a praga dos minúsculos insectos continuava. Acho que foram eles que o mataram. Quem me dera tê-lo levado para dentro, quem me dera não ter respeitado esse pequeno e tão decisivo momento da ordem natural. Assim, apenas um sobreviveu. Espero que no próximo ano venha aconchegar-se no ninho vazio que ficou no meu jardim.

junho 16, 2006

Um mês!

Macau, 17 de Maio de 2006
Os tenrinhos lá de casa já têm um mês! Fazem hoje um mês!
O tempo "voou" e eles cresceram. Estão de se "trincar"...
Nasceram a 16 de Maio, entre as 5.15 e as 9 da manhã. Começaram a nascer para o mundo ao mesmo tempo que a madrugada despontava. Passei a noite toda deitada no chão ao lado da Mary. E afinal nasceram 6 - 3 machos e 3 três fêmeas, mas uma viveu poucos minutos.
O primeiro e o último foram machos, a segunda uma fêmea e do resto não me lembro. Foi cansativo (com a ajuda do anti-histamínico que tive de tomar) e, apesar de ser a Natureza, não é muito agradável para os sentidos - olfacto -, se bem que fascinante em termos de herança de instinto de sobrevivência. A mãe come a placenta, corta o cordão umbilical, limpa-os e eles tentam logo começar a mamar.
Agora o Pasha, a Hera, o Tyro, a Gaia e o Omar já brincam, mordiscam, tentam correr e dar pulinhos, comem sozinhos, têm dentes, veêm e ouvem, reconhecem-nos e derrentem-nos o coração.
Já têm famílias, e a Mary também, mas só começarão a sair após as seis/sete semanas, para que fiquem bem formados e fortalecidos graças ao leite da mãe.
Alguns dos outros cães estão curiosos/ansiosos - o Taco que se porta como se fosse pai, e o Boris que os lambe, chia mas que tenta abocanhá-los (talvez para os poder levar para o outro lado), o que me obriga a não o deixar por perto; os outros estão todos mais ou menos indiferentes e o pai, o adorável e despistado Creamy, tem medo e nem se aproxima... não tem de todo a noção de que foi ele quem depositou a semente (como muitos machos fê-lo e seguiu para "bingo"...).
O grau de desenvolvimento e de despertar para a vida é diferente.
Fica para próxima a narração dos feitos individuais dos mais recentes e queridos "Cinco".

maio 03, 2006

www.olhares.com

Kaiping, Novembro 2003

Este é um site de fotografia que descobri através de um amigo no hi5.
Fui "meter o nariz" e fascinei os olhos!
Tem imagens lindíssimas, de alta qualidade, tiradas por verdadeiros profissionais muitos dos quais, na realidade, são amadores.
E resolvi aderir.
Porque continuo a precisar de aprender. Porque continuo a precisar de me distrair. Porque a fotografia é o meu hobbie favorito (apesar dos desfalques que me provoca no orçamento...).
Foi um caminho que se me abriu há alguns anos, à medida que nas viagens que fazia ía percorrendo outros caminhos - entre paisagens, expressões, texturas, detalhes, contrastes, olhares...
Fiz alguns workshops o que me permitiu evoluir e descobrir os géneros com que mais me identifico: as expressões, os detalhes, as texturas, os movimentos lentos e o mundo da experiência das exposições-múltiplas: as imagens que sobreponho numa aventura constante e cujos resultados por vezes são espantosos, por vezes decepcionantes. Porque não faço as sobreposições em laboratório ou digitalmente.
Prefiro o desafio de tentar criar harmonia estética voltando a fotografar sobre películas anteriormente expostas.
À excepção das capas dos livros a que faço referências noutras entradas, todas as fotografias que ilustram o passoconsentido são minhas.
E, sempre que possível, continuarão a sê-lo!

Está quase...


O tempo está a passar... e a Mary está a engordar, não a "olhos vistos", mas já está com um volume de pré-mamã... sempre com aquele seu olhar dengoso que nos derrete o coração!
No Sábado fizeram-se radiografias e uma ecografia; eu estava com esperança de que fossem só dois cachorrinhos... fiquei-me pelas esperanças e perdi as ilusões! No mínimo vão "entrar-me pela porta" CINCO!
Estou apreensiva; nunca passei por tal experiência, só quero que tudo corra bem, que todos sobrevivam e que ela não passe um grande aperto. Ao que parece os bébés são para o pequenino (saiem à mãe).
De qualquer forma já pedi a amigos meus que me façam companhia.
Apesar da Natureza saber o que faz eu não quero ser "parteira" sem assistentes!
Como a data limite é 18/19 de Maio, provavelmente vão nascer de 20 para 21 porque há mudança de Lua.
A ver vamos como serão os cachorrinhos tourinhos (pena que não possam ser geminianos...)!

abril 28, 2006

...

Zhongdien, Abril 2006

Há segredos que não se desvendam.
Segredos que sabemos não com o cérebro mas com os sentidos.
Segredos que estão em nós e que só alguém pressente.

David Mourão Ferreira

Vida

Yubeng, Abril 2006

É preciso viver, não apenas existir.
Plutarco

abril 21, 2006

Libertação Animal


Como muitos dos debates internacionais que animam a opinião pública, as universidades e os intelectuais dos países mais desenvolvidos, o problema dos direitos dos animais tem passado despercebido em Portugal. Temos até o caso de Barrancos a lembrar-nos até onde a crueldade portuguesa pode ir em nome da tradição (como se qualquer tradição, só por ser uma tradição, devesse ser respeitada — afinal, também a escravatura era uma tradição milenar e foi abandonada). Com a publicação em Portugal da obra "Libertação Animal", de Peter Singer, a Via Optima vem dar aos portugueses a possibilidade de participar no debate internacional de ideias e de repensar algumas das suas convicções mais enraizadas. Esta obra foi originalmente publicada em 1975 e foi responsável pela vitalidade dos mais importantes movimentos em prol dos direitos dos animais. A edição a que agora temos acesso em português, traduzida por Maria de Fátima St. Aubyn, é a edição revista de 1990.
O livro tem 6 capítulos, dois prefácios (referentes às edições de 1975 e de 1990), três apêndices e várias fotografias ilustrativas do modo como os animais são tratados. Os apêndices apresentam uma útil bibliografia comentada, indicações que ajudam a viver sem pactuar com a crueldade para com os animais, e ainda uma listagem de organizações que, um pouco por todo o mundo, lutam contra o modo como tratamos os animais. O editor português incluiu nesta lista, e bem, referências a organizações congéneres portuguesas.
O primeiro capítulo é semelhante ao capítulo 2 da obra "Ética Prática" e tem por título "Todos os animais são iguais". Trata-se de discutir a ideia de igualdade e de mostrar que restringir esta ideia aos seres humanos é uma forma de "especismo" — um preconceito indefensável e semelhante em tudo ao racismo. A ideia de igualdade é muitas vezes mal compreendida pelo grande público. Pensa-se que as mulheres e os negros ou os ciganos têm os mesmos direitos que as outras pessoas por serem iguais às outras pessoas. Mas isto esconde ainda uma forma de racismo e de sexismo. Em primeiro lugar, os homens são muito diferentes das mulheres: têm sexos diferentes. Mas daí não se segue que os direitos das mulheres se subordinem aos direitos dos homens. Em segundo lugar, é óbvio que há pessoas mais inteligentes que outras. Newton ou Einstein ou Descartes foram mais inteligentes do que a maior parte de nós; mas daí não se segue que tenham mais direitos do que nós. Em conclusão: não é por os ciganos, negros, etc. serem iguais aos outros seres humanos que têm os mesmos direitos. É verdade que são realmente iguais, em termos genéricos, nomeadamente quanto à inteligência; mas mesmo que não fossem, isso não determinaria que tivessem menos direitos. Afinal, um deficiente mental não tem a mesma inteligência de uma pessoa normal, mas não deve ser discriminada por isso.
Quando compreendemos a igualdade correctamente, compreendemos que é difícil não a alargar aos outros animais; discriminar com base na espécie é tão aleatório como discriminar com base na etnia ou no sexo. O que é moralmente relevante para ter direitos é a possibilidade de sofrer. Dado que os animais podem sofrer, têm direitos. No primeiro capítulo, Singer procura mostrar que a correcta compreensão da noção de igualdade implica que os animais têm direitos, respondendo a muitas das objecções que é comum levantar neste ponto do debate: será que os animais sofrem realmente, ou serão meros autómatos incapazes de sentir dor por não terem alma, como defendia Descartes? Será que faz sentido falar de direitos dos animais quando eles não têm sequer a noção do que é um direito? Singer responde com imparcialidade, rigor e bonomia a estas e outras objecções.
O segundo capítulo, intitulado "Instrumentos para a investigação" apresenta a realidade das experiências científicas com animais. Tanto este capítulo como o seguinte baseiam-se em ampla documentação. O autor conduziu uma investigação sobre o modo como os animais são usados na investigação científica — e os resultados são surpreendentes. A ideia que se tem geralmente é que as experiências com animais permitem avanços importantes em medicina, o que ajuda a salvar vidas humanas. Isto é falso. Grande parte das experiências científicas com animais são levadas a cabo por psicólogos que estudam o comportamento dos animais em situações anormais. Por exemplo: colocam um cão vivo numa espécie de forno, o qual aquecem lentamente até o cão morrer por ser incapaz de suportar o calor. Dão choques eléctricos a ratos e cães, para determinar como reagem a situações de dor permanente. Grande parte deste capítulo consiste em descrever experiências deste género, com base nos relatórios publicados nas revistas da especialidade.
Além de grande parte das experiências com animais levadas a cabo pelos cientistas ser perfeitamente irrelevante para o progresso do conhecimento, não é também verdade que algumas experiências sejam determinantes para salvar vidas humanas. Na verdade, nunca tal coisa aconteceu; e o contrário está mais próximo da verdade. Alguns avanços médicos cruciais que salvaram milhares de vidas jamais teriam sido alcançados caso se baseassem em experiências com animais: "a insulina pode provocar deformações em coelhos e ratos pequenos, mas não nos seres humanos. A morfina, que actua como calmante nos seres humanos, provoca delírios em ratos" (p. 53). E a penicilina é tóxica para os porquinhos-da-índia.
A maior parte das pessoas que defendem os direitos dos animais estarão dispostas a concordar com os argumentos do autor até chegarem ao capítulo 3, intitulado "Visita a uma unidade de criação intensiva". Neste capítulo descreve-se a forma como os animais que comemos são tratados pelas modernas unidades de criação intensiva e o sofrimento a que são sujeitos. E é aqui que começam as dificuldades para o defensor dos animais, pois agora não se trata só de uma opinião sobre coisas que não o afectam; para ser consequente, o defensor dos direitos dos animais terá de deixar de comer animais, dado que é o nosso gosto por carne e peixe que determina o modo como os animais são tratados. O modo como as galinhas, os porcos e as vacas são tratados nas unidades de criação intensiva é descrito de forma imparcial, com base nas revistas da especialidade.
Dada a forma como os animais são tratados para produzirem carne, ovos e leite, que pode o defensor dos direitos dos animais fazer para ajudar a resolver a situação? O tema do capítulo 4, "Ser vegetariano", defende um estilo de vida vegetariano como resposta a esta questão, para que o defensor dos direitos dos animais não seja hipócrita e inconsequente, defendendo com palavras o que contraria nos seus actos: "É fácil tomar posição acerca de uma questão remota, mas os especistas, como os racistas, revelam a sua verdadeira natureza quando a questão se torna mais próxima. Protestar contra as touradas em Espanha, o consumo de cães na Coreia do Sul ou o abate de focas bebés no Canadá enquanto se continua a comer ovos de galinhas que passam as suas vidas amontoadas em gaiolas, ou carne de vitelas que foram privadas das mães, do seu alimento natural e da liberdade de se deitarem com os membros estendidos, é como denunciar o apartheid na África do Sul enquanto se pede aos vizinhos para não venderem a casa a negros" (p. 152).
Surpreendentemente, há ainda outras razões para abandonar o consumo de carne. A produção intensiva de animais para abate é, em termos ecológicos, um disparate. "São necessários cerca de 11 kg de proteínas em ração para produzir o 1/2 kg de proteína que chega aos seres humanos. Recuperamos menos de 5 % daquilo que investimos" (p. 155). As fezes dos animais que são produzidos para abate contribuem em larga medida para o efeito de estufa; as urinas contaminam os solos e os lençóis subterrâneos de água. A água é consumida em grandes quantidades pelos animais para abate, contribuindo assim para o esgotamento progressivo das reservas de água potável. "A água necessária a um boi de 500 kg faria flutuar um contratorpedeiro" (p. 157). Os animais para abate são alimentados com rações que são produzidas a partir de cereais que os seres humanos podem consumir directamente, de forma muito mais vantajosa. "Se os americanos reduzissem o seu consumo de carne em 10 % durante um ano, libertariam pelo menos 12 milhões de toneladas de cereal, que […] seria suficiente para alimentar 60 milhões de pessoas" (p. 156).
O capítulo 5, intitulado "O domínio do Homem" procura dar conta das origens históricas do especismo. O pensamento grego, romano e cristão é profundamente especista — coloca os animais fora da consideração moral, tratando-os como meros objectos inanimados. A ideia de ver um animal a sofrer e de explorar o seu comportamento nessa situação tem raízes antigas, subsistindo ainda nos dias de hoje em espectáculos como a tourada. Peter Singer acompanha a história do especismo, que começa a tornar-se cada vez mais difícil de sustentar, sobretudo depois de Darwin. Mas trata-se de um preconceito de tal modo enraizado que mesmo T. H. Huxley, um dos maiores defensores do darwinismo, compreendendo que não há um fosso biológico entre nós e os outros animais, continua a acreditar nele, resistindo à refutação do especismo. Mas "a resistência à refutação é uma característica distintiva de uma ideologia. Se os fundamentos de uma posição ideológica lhe forem retirados, encontrar-se-ão novas construções ou, então, a posição ideológica permanecerá suspensa, desafiando o equivalente lógico da lei da gravidade" (p. 197).
O capítulo final do livro, "O especismo hoje", apresenta objecções e respostas à causa dos direitos dos animais e alguns dos resultados prometedores a que já se chegou. Diz-se por vezes que os animais não podem ter direitos porque não têm deveres nem entendem o que é ter direitos. Mas os deficientes mentais e os bebés também não têm deveres nem compreendem o que é ter direitos — e no entanto têm direitos. Afirma-se também por vezes que os seres humanos não podem passar sem comer carne; mas isto é pura e simplesmente falso, como o atestam os milhões de vegetarianos saudáveis em todo o mundo. Também se coloca por vezes a questão de saber por que motivo nos devemos coibir de matar os animais para comer, se os animais se matam uns aos outros com o mesmo fim. Mas ninguém acha que podemos matar outros seres humanos para comer, apesar de sabermos que os animais matam seres humanos para comer se tiverem oportunidade de o fazer.
"Libertação Animal" é uma obra de leitura obrigatória. Pela clareza, seriedade e honestidade. Pelo rigor lógico. Pela inteligência dos seus argumentos. Está de parabéns a Via Optima. E quando uma editora está de parabéns, somos todos nós que ganhamos.
Desidério Murcho
Artigo originalmente publicado na revista Livros (Julho de 2000).
A imagem da capa é da edição brasileira (apenas por uma questão estética)

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Macau, 2004


Por vezes a mentira exprime melhor do que a verdade aquilo que se passa na alma.
Maximo Gorki

Sem olhar para trás

Ura, Canil de Macau, Novembro 2003

"O meu cão tem um medo louco de ser abandonado. Não abandonado de abandonado, ou seja, despejado no meio da rua e de um mundo para o qual não está preparado, mas abandonado no sentido de deixado sozinho. Quando a família sai de casa ou do carro, o cão chora e ladra pedindo que o levem com eles. A choradeira e os latidos e ganidos são tantos que quem passa ao lado pensa que o cão está a ser torturado. Nada, na vida curta deste cachorro, que anda sempre com toda a gente para todo o lado, o pode levar a suspeitar que vai ser abandonado. Pelo contrário, o cachorro tornou-se o centro das atenções e é um ídolo popular entre adultos e crianças, que o mimam excessivamente. Nunca foi deixado para trás, nem esteve num canil. Nunca está sozinho. Observando o seu terror da solidão e do abandono, chego à conclusão que aquele terror e aquele medo devem ser ancestrais, cromossómicos, genéticos, ou o que quer que seja. Ao contrário dos gatos, os cães não apreciam a independência e a solidão e por isso muitas pessoas os preferem aos gatos. Ao contrário dos gatos, as pessoas também não apreciam a independência e a solidão.
Esta é a altura do ano em que as pessoas abandonam os animais. Vão de férias e, antes de partirem, o cachorro que se revelou tão bom companheiro no Inverno passa a empecilho no Verão, sendo deixado, como quem não quer a coisa, num parque da cidade ou numa praia dos arredores. Salta bobi, salta, sai do carro bobi, e o bobi vê pela última vez a cara e as festas dos donos. A única salvação destes bichos abandonados é o apelo das crianças, quando as crianças existem, embora eu ache mau sinal ter crianças quando se é capaz de abandonar um bicho ao Deus dará. Quem abandona um cão, abandona um filho ou um pai. Esta é também a altura do ano em que os velhos são abandonados nos lares de terceira idade, nos hospitais, nos asilos. Paizinho, nós depois voltamos em Setembro, e o paizinho, com os olhos revirados de terror, sabe que está condenado.Uma vez conheci num lar uma velhota que tinha sido lá deixada pela família há mais de doze anos. Pagavam o lar e nunca a visitavam. Tinha a velhota quatro filhos e um ror de netos e nem um deles se dignava aparecer e perguntar como ia indo. A velhota tinha-se resignado ao abandono e, lúcida como estava, contou-me que nem as fotografias da família queria por perto. Tinha deitado os retratos e as molduras fora, não lhe serviam para nada, e o tempo tinha passado, decerto estavam irreconhecíveis. Os netos grandes, os filhos velhos. Doze anos sem ver a mãe, a avó, a tia, a irmã. Doze anos, uma eternidade. A velhota contava isto sem sentimentalismo, as lágrimas estavam secas ao canto do olho vermelhusco, escondido pelas rugas da pele. O meu marido, que Deus tenha, teve mais sorte que eu, morreu cedo, fiquei viúva aos quarenta e tal anos. Nos primeiros tempos tinha ficado à espera, depois habituara-se, nunca mais viriam, nem sequer quando morresse. Os funcionários do lar também se tinham habituado, aquilo estava sempre a acontecer, a velhota não era excepção. A velhota tinha, contudo, a esperança de que um dia os filhos dos filhos dela fizessem o mesmo aos pais deles, para verem como doía.
Os cães não se queixam mas, na Avenida Gago Coutinho, em Lisboa, nos meses de Junho, Julho e Agosto, os cães são deixados à solta, com coleira, talvez as vacinas em dia, e nenhuma identificação. Alguns são recolhidos pelas oficinas de automóveis da Quinta do Noivo, e por ali andam, perdidos nos primeiros dias, com o pêlo lustroso e lavado e os sinais da raça. Aparece de tudo, sobretudo cães grandes, aqueles que dão mais trabalho e comem mais. Golden retrievers, labradores, pastores alemães, cocker spaniels, lassies e laicas e bobis vários, com e sem pedigree, rafeiros e finaços. Damas e vagabundos. Cães aos quais foi aberta discretamente uma porta do automóvel, a caminho da auto-estrada, na secreta esperança de que não sigam o carro muito tempo ou sejam atropelados pelo próximo carro. Um dos mecânicos, uma boa alma que me contou isto e que, com os colegas de ofício, alimenta e toma conta de vários cães, gastou no outro dia 12 contos no veterinário com uma cadela a que se afeiçoou, abandonada como os outros, e que dorme debaixo dos carros, e aprecia o conforto dos motores quando ainda estão quentes, no tempo frio. A cadela segue-o para todo o lado, no terror de ser abandonada, e ainda tem a coleira que atesta a sua pertença a uma destas saudáveis famílias ou seres humanos que largam os cães na avenida. Os cães acabam uns com os outros, fazendo-se companhia na sorte comum e, provavelmente, congratulando-se por terem escapado das rodas de um camião de longo curso.
Sempre achei que os cães sabiam mais sobre as pessoas do que as pessoas, e que não é preciso ler o livro de Peter Singer, «Animal Liberation», para dar aos animais a capacidade de sofrimento e estatuto moral que tanto lhes queremos negar. Os cães da Quinta do Noivo e de Chelas teriam umas coisas para dizer à velhota do lar, e talvez se entendessem bem. Ao contrário dos cães, os velhotes não podem contar com a generosidade e a compaixão dos mecânicos de automóveis que guardam o saco da ração por baixo da parede enfeitada com aqueles calendários das oficinas, mulheres loiras e seminuas a fazer boquinhas. Ao contrário dos cães, os velhos não estão por sua conta, estão à mercê do mundo, e essa não é uma boa posição na sociedade ocidental, e em particular na sociedade portuguesa actual, que tanto se orgulha do seu católico sentido da família. Uma visita pelos lares, de velhos e de deficientes, durante as férias dos portugueses, é bastante instrutiva sobre a capacidade para amar dos portugueses. E há ainda os profissionais disto, os que quando voltam de férias arranjam outro cão, até ao Verão seguinte."

Ura é a minha estrela desde um dia de Outubro de 2004.

abril 13, 2006

Avalanche!

Yunnan, Abril 2006


Faz hoje uma semana, andava eu por terras da China, província de Yunnan, com seis amigos quando, após mais de 6 horas de caminhada montanha acima, montanha abaixo (uns a pé, outros de burro), fomos, no regresso pela mesma estrada que fizéramos dois dias antes, de novo confrontados com derrocadas de pedras.
Se à ida a situação já tinha sido emocionante - pelo seguro, e para facilitar a vida ao "Dentes" condutor do nosso autocarro, atravessámos a pé por cima dos imensos calhaus acumulados e ficámos na expectativa a ver as tentativas para fazer passar o veículo que, às tantas, estava de tal forma torto que voltou para trás e foi necessário remover pedras e tornar o solo menos irregular... uma queda pelo precipício significaria morte certa - no regresso estava assustador!
Havia carros, autocarros, camiões TIR parados sem passar há mais de dia e meio; enquanto alguns ficávamos no autocarro, outros foram para uma zona mais próxima da derrocada ver o que se passava; ao regressarem as notícias eram desanimadoras: impossível transitar porque tentá-lo era brincar com a sorte... A alternativa era fazer mais de 600 quilómetros por estrada de montanha para chegar ao hotel que estava apenas a cerca de 10...
Ouvir isto, quando se está com os pés encharcados há horas graças à caminhada pela neve e quando a temperatura ronda os 3 graus numa altura em que desata a chover e a nevar, é desesperante.
Mas a Natureza é madrasta e mãe... e lá veio alguém dizer que as fases de queda se alternavam com períodos de estagnação; o que era preciso era contabilizar o tempo de derrocada e o tempo de acalmia, como as séries de 7 ondas com que o mar nos brinda e que permitiram ao protagonista de Pappillon fugir da ilha em que estava encarcerado... E lá fomos nós de mochilas e malas e máquinas fotográficas, uns mais apreensivos que outros.
Já vivi tufões grau 10, que fizeram cair quadros das paredes em minha casa, já vi as marés vivas arrancarem pedras dos muros da Marginal; no dia anterior tínhamos ouvido avalanches de neve; mas o que se nos deparou era, de facto, impressionante e atemorizador: tudo calmo pela encosta abaixo... de repente começava como que um rio de pequeníssimos seixos a deslizar e quando dávamos por nós estávamos entre o incrédulo, o fascinado e o assustado a ver pedregulhos enormes a tombarem e a desfazerem-se ao bater na estrada, quais bombas a largarem estilhaços em todas as direcções, antes de seguirem o seu caminho pela encosta seguinte também a pique.
E no meio de tudo alguns "loucos" que se aventuravam entre as pedras que continuavam a cair e os que ao volante de camionetas resolviam carregar no acelarador e passar também, motivando novas derrocadas consequência da trepidação provocada.
Por fim lá decidimos, um a um, testar a sorte, sempre atentos não fosse algum calhau perdido apanhar-nos pelo caminho... e assim todos passámos, pé aqui pé acolá, a tentar não torcer os tornozelos e a não cair por cima de um monte de pedregulhos de tamanhos desiguais.
O alívio foi enorme ao juntarmo-nos todos do outro lado onde já estava uma carrinha à nossa espera. E foi, entre gargalhadas catárticas, o recordar o que, a quente, alguns tinham dito: "Eu não posso passar com o meu marido" (porque têm 3 filhos), ou "Tenho que passar com a minha mulher porque não consigo ficar a olhar para ela" (ela ficou de lágrimas nos olhos), ou "Não vim para esta viagem para pôr a minha vida em perigo", ou "Não sei que vos diga... devo ser inconsciente porque não consigo ter medo duma coisa destas..."... "É, és completa e totalmente insconsciente!".
Enfim foi um momento emocionante (mas não excessivamente dramático) que a juntar à viagem do dia seguinte, por alvas estradas cortadas devido ao nevão que caíu incessantemente durante horas, a sítios e paisagens deslumbrantes e gentes encantadoras tornaram este passeio por terras do Império do Meio inesquecível.
Mas o grande, grande "amor da minha vida" foi o Tibet...